sexta-feira, 12 de maio de 2017

Rosa Santa Teresinha


Como já tiveram oportunidade de reparar, e falo de quem me vai lendo neste mundo da blogosfera, que ando afastada e muito queda. 
Quando não há mote de inspiração, os acontecimentos relevantes do dia que nos tocam, por vezes são o suficiente, para que o dedo dê de si, e registe o momento capturado na objectiva das palavras.
Ora, desde o dia 5 de Outubro de 2005, o meu pai, o Zé, é utente residente, no Centro Hospitalar Conde Ferreira. De segunda a sexta-feira, passa o dia no Centro de Dia do Alzheimer, São João de Deus, onde almoça, lancha e janta e nos períodos intercalares faz actividades de estimulação cognitiva, terapia ocupacional e de fisioterapia (o Zé já não sabe andar, mobiliza-se em cadeira de rodas). Após o jantar, sobe para a enfermaria, João XXIII para pernoitar, e claro está, em dias de feriado e aos ao fim-de-semana, permanece o dia inteiro naquela enfermaria.
Desde aquela data a esta parte, a rotina do meu pai é aquela, e a minha, tem sido no sentido de articular a minha actividade profissional e a de casa com o acompanhamento presencial e sistemático que lhe faço, três vezes por semana.
Terças e quintas-feiras, saio do trabalho ao fim da tarde em direcção ao Centro de Dia, dou-lhe o jantar, levo-o a fumar nos jardins do recinto hospitalar, e por fim deixo-o na enfermaria, para dormir. Aos sábados, no período da tarde, faço-lhe a visita na enfermaria, e sempre que as minhas filhas e o meu marido têm disponibilidade, também vão ver o avô e o sogro.
Não desviando do assunto, nem do acontecido, e a título complementar, informo que aquele Centro Hospitalar alberga um número vasto de utentes, ora residentes, que em função das patologias de que padecem, estão agrupados por enfermarias distintas e específicas; ora alberga utentes não residentes, que são acompanhados durante todo o dia e continuadamente, de segunda a segunda no Hospital de Dia. O centro de Dia do Alzheimer destina-se exclusivamente a utentes portadores da doença de Alzheimer ou de outras demências em fase leve a moderada da doença, devidamente diagnosticada.
Pois então, ontem, quinta-feira, estava eu a tocar à campainha do Centro de Dia, quando de repente, em direcção a mim, vem uma jovem utente residente, com livre-trânsito de circulação extra CHCF, que me abordou de uma forma muito gentil.
- Estás tão bonita e elegante, hoje! Vieste ver o teu pai?
- Vim sim. Mas olha, tu é que estás muito bonita, respondi-lhe eu, com um sorriso ruborescido.
A jovem seguiu caminho, pelos jardins fora, eu entrei, e fui dar o jantar ao Zé.
Eu e o Zé após o jantar, já nos encontrávamos no espaço exterior, para ele fumar o seu último cigarro do dia, quando de repente, de lá vem novamente a jovem, agora em direcção a nós. Ainda nos oferecia uma distância de cerca de 5,00m e já acenava na mão esquerda uma rosa Santa Teresinha.
- Olha, olha, colhi esta flor para ti. Oferecendo-me aquela rosa com um sorriso franco e acolhedor...
Os meus olhos ficaram rasos de água, mas com um grande esforço, consegui impedir a precipitação das lágrimas rosto abaixo.
Agradeci aquele gesto genuíno com um beijinho e um abraço bem aconchegado ao coração. Ninguém faz ideia, mas os utentes que dão vida, aquele conjunto edificado centenário, são de uma genuinidade e de uma meiguice incalculável, apesar das graves carências afectivas de que são alvo, há anos.
- Estou a fazer tempo para ir jantar. Acrescentou ela.
- O meu pai já jantou, além do mais, o vosso jantar daqui a nada também é servido, já falta pouquinho.
- Pois é, o teu pai janta muito cedo. Olha, o teu pai é escritor? Perguntou-me a jovem com os olhos grandes, bem arregalados?
- Não querida, o meu pai em tempo foi engenheiro, agora só é o meu Zé!
- Sabes? Este fim-de-semana vou a casa, a minha mãe está doente.
- Faço votos das francas melhoras da tua mãe.
- Vou subir, aqui está muito fresco, rematou a jovem.
- Vai lá então. Bom jantar, e bom fim-de-semana.
A moça subiu para a enfermaria respectiva e eu fiz o mesmo com o meu pai quando ele terminou de fumar o seu último cigarro do dia.
Dali, fui para casa com a flor na mão, e com o coração bem consolado. Quiçá um dia, ganho coragem para aprofundar o tema e dar a conhecer uma realidade em presença dura, que quase ninguém conhece.

Obrigada a todos e bom resto de semana.

Sandra

segunda-feira, 17 de abril de 2017

My Sweet Wish

Sebastião Salgado
África - Botswana


Eu adoraria deitar o meu pescoço, de asa aberta em voo rasante, naquela brisa amena de tempero almiscarado, onde o infinito não se faz barreira nem limite; e falo da minha raiz sem presença, noutra terra, noutro céu, noutra paisagem, por entre outras gentes, outras cores e outros perfumes; e mais falo da sua cultura de alheação de génese material e afectiva. 
O meu Norte, além-mar, tem aquele apego que não se despega a quem o carrega nas entranhas da alma.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Maria Jaquina

Street Art - Rua João de Deus, n.º 121, Vila Nova de Gaia
Maria Jaquina, filha da ti´Maria e do Ti´Jaquim, é casada com o Maneli, o padeiro da terrinha, e mora bem aqui ao lado, na Rua ao Virar da Esquina.
Pois é, Maria, pelo lado da mãe, Mulher pequenina, genuína como a sardinha; 
Jaquina, pelo lado do pai, Mulher de pelo na venta, como diz sua avozinha, menina simples, peito a eito e mão à cinta.
Ora aí está, a verdadeira conjugação explosiva, que faz da Maria, a Mulher de essência genuína, quer da cidade, quer da província. 
E sempre que a miro, cada vez mais a admiro, pois tenho nela a mão mestre que embala o berço da raça humana, e a estrela guia do norte da vida.

Digam lá, se ser Mulher, não é mesmo, a aventura de uma vida?!...

Então vá meninas, hoje o dia foi só nosso :)
Beijinhos para vós, 
Meninas, obviamente!

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Porto de Abrigo

Mercuro B. Cotto
Ele carrega na alma
a calma do fio
de uma navalha afiada;
abre caminho
por entre espinhos,
costas escarpadas,
e tendas de circo
como quem aconchega sonhos
de algodão doce
em noites de seda velada.
Guarda o tempo no bolso,
a noite e o dia ainda são crias pequeninas…
Lança as velas ao vento,
folhas de papel crepe colorido,
por um fio,
trilho transparente,
quiçá inexistente.
Qual navalha que lhe dá o corpo
que lhe dá a alma, que o faz gente,
sangue do meu sangue frio a ferro quente,
ventre que pare a dor de um filho,
mão guardiã,
porto do meu abrigo.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Tu

Noell Oszval - black cat
És a porta e a janela aberta
da pele que eu habito,
és o meu cheio e o meu vazio,
o meu silêncio e o meu grito.
Tu, és o colo que me aconchega,
o “Porto” Seguro do meu abrigo.
És o meu céu e o meu rio,
o meu jardim e a minha floresta,
és a minha paz
e também a minha guerra.
Tu és todo o meu amor,
e todo meu ódio,
és o melhor
e o pior que há mim.
Tu és a outra,
o extremo oposto do meu eu,
o lado insano de todo o meu ser
e de todo o meu sentir.
Tu, és a sombra 
que dá corpo ao meu viver.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Dezembro polvilhado com açúcar e canela

Elena Vizerskaia

Caramba!
Estou mesmo precisada
de um corpo novo
para embrulhar a alma...
Pode ser que o "Pai Natal" seja generoso e se lembre de se esquecer de um, bem recauchutado no criado-mudo do meu quarto!
Graças à parte, ainda que arredia e ausente não me esqueço da Gente que mora dentro deste universo da Blogosfera! E por isso, aqui vos deixo uma linhas aromatizadas a Dezembro, polvilhadas com açúcar e canela. 
Assim sendo, para todos sem excepção, e, em especial para aqueles que vivem aqui dentro, e que eu adoraria trazer para o lado de cá de fora desta porta, que nem coelhos tirados da cartola, deixo os meus votos de todo o bem-querer por tempo indeterminado, e já agora, façam por serem felizes, e por fazerem alguém feliz...
Então vá, tudo de bom e assim, para vós e para os vossos.
Beijinhos e Abraços.

Sandra

domingo, 4 de dezembro de 2016

das Cores Proibidas

Imagem tirada daqui

Eles são amigos,
amantes,
confidentes clandestinos,
e mais são
testemunhas e arguidos,
do crime
não cometido.
Eles são números primos
entre si,
filhos do desassossego,
almas inquietas,
qual pele agrilhoada 
à cruzeta
do tempo da espera.
Eles sem se serem, 
são
fruto da matéria,
são 
parte do todo,
a metade que faz do outro
a “peça” inteira.